sexta-feira, 8 de julho de 2011

Último dia e a chegada a Águas Calientes

Esse dia é pura empolgação. Parece que todos estão eufóricos. Vamos caminhar pouco, cerca de 9 km e chegaremos a Águas Calientes. Arrumamos tudo como de costume, café da manhã tomado e cajado nas mãos. Vamos de carro até a hidreléttrica onde começaremos a caminhada. Seguimos pelos trilhos dos trens. "Caminhando e cantando e seguindo a canção".



O corpo está inteiro hoje, recuperado e empolgado. E quer chegar logo e ver Machu Picchu. Mas a mente não quer chegar...não quer que acabe. Ambivalência da caminhada. A chegada não é o importante mais. Lembranças do "Guerreiro Pacifico": o importante é o caminho e não o fim. E a música dos Beatles na mente, all we need is love!
Calor, pernilongos e umidades...parece muito Birigui em época de verão, me sinto em casa.
Bromélias cobrem toda a encosta das montanhas. Lindissimo! Tenho um encanto especial por essa planta. Ela é um ecossistema completo, que coisa mais brilhante da natureza!
E enfim chegamos a Águas Calientes, felizes, inteiros, e prontos para ver a cidade perdida dos Incas.
A peregrinação acabou aqui, na pracinha da cidade, mas no meu coração continua até hoje todas as vezes que olho as lindas fotos do caminho e recordo cada momento.

3o dia e a paisagem muda completamente

Um dia muito longo. Acordamos cedo, café da manhã preparado com carinho, mas meu corpo ainda não queria saber de comer. Ele tinha muito a digerir internamente...
Achei que seria um dia dificil já que não havia me alimentado apropriadamente. E foi aí que aprendi na prática que a palavra apropriado, correto, adequado, ideal não quer dizer nada. São padrões da nossa mente racional, e que temos muita energia guardada, por mais que não sabemos onde.
Portanto, peguei meu cajado e segui, mais um dia caminhando. Trajeto mais fácil, muito mais plano. A floresta tropical nos rodeando. Teias de aranhas lindas em formas de funil e sua rede aberta coletando todo o orvalho da madrugada. Parecia uma obra de arte. Muitas frutas nas bordas: morangos silvestres, maracujas. Cachoeiras lindas cruzando o tempo todo nosso caminho. Calor e sol, muito sol. Caminhei quase o tempo todo sozinha e em silêncio. Silêncio completo, interno e externo.
Foram 13 km de caminhada. Não é muito, fácil de fazer. Mas os musculos estavam cansados da descida do dia anterior. Quando chegamos ao acampamento, tivemos que subir uma escadaria que para as minhas pernas pareciam o fim do mundo. Com o tempo a dor melhorou. Mais um aprendizado (Budismo na pratica): a vida é impermanência! Tudo passa, deixe que a dor passe por você!
No final do dia um brinde aos músculos guerreiros. Águas quentes para um banho em um poço recém descoberto após as enchentes do ano anterior. Uma antiga piscina natural no meio de uma paisagem que mais lembrava a lua. O rio coberto de pedras, a pequena cidade de Santa Tereza sofreu muito com as chuvas. Mas fomos abençoados com essa descoberta poucos dias antes.
Meu corpo agradecido pelo banho, pela comida quentinha e pela noite de sono ao lado do rio. Noite quente ao som da correnteza. Uma delicia!

domingo, 26 de junho de 2011

2º dia: A subida ao Salkantay


Comecei esse dia com uma saudade muito profunda das minhas filhas. Acordamos ao pé da montanha, muito frio, tudo branco pela geada da noite anterior. Sentimentos a flor da pele pela expectativa da subida, pela noite mal dormida com os pés congelados, e com a noticia que minha companheira de quarto não seguiria mais essa peregrinação comigo.

Ali no pé da montanha senti uma profunda solidão. Sabia que aquela jornada seria solitária e muito interior. Equipados seguimos após cantarmos juntos um mantra a Pachamama (mãe terra). Silêncio...

Um brilho de uma pedra...muita saudade...lagrimas...

Subida íngreme! Falta de ar...poucos pensamentos...

Após os 4000 metros de altitude, não sei mais como tudo aconteceu. Eu comecei a ter tonturas. Lembro muito pouco de tudo, apenas sei que meu guia me colocou no burrinho e minha maior aprovação começou ali, aprendendo a me integrar com aquele animal. A sudida é assustadora. Os cavalos vão em zigzag pela estreita trilha, um abismo ao lado, andando rente ao penhasco, com as pedrinhas caindo conforme eles pisam. Se existia alguma ancestral Amazonas na minha estória, eu a invoquei. Eu estava em panico ali.

E então tive a luz, a clareza de saber que aquele medo fazia parte da minha peregrinação. Como nada na vida é por acaso, aquele evento também tinha sido programado por mim. Eu precisava passar por aquele medo e a entrega total a um ser que me guiaria até o topo. E gratidão por ele estar ali e me proteger. E tudo se acalmou...chegamos ao topo.

Silêncio...

A visão magnífica da montanha Salkantay...

Ar frio e seco...Falta de ar...





A descida foi intensa. Muita atenção para não escorregar. Mas, leve, doce, feliz. Ver a paisagem se alterando foi lindo. Saimos do extremo frio e seco, sem vegetação, arido, pedregoso, e conforme descemos o verde vai tingindo a paisagem. Primeiro uma vegetação rasteira e alguns riachos, que se formam pelo descongelameto da neve das montanhas. Agua cristalina, gelada. Passamos por dentro das nuvens. Nosso acampameto de almoço foi surreal. Fog completo, estamos no céu? Sim, estavamos no meio das nuvens! Comida saborosa feita com capricho e carinho. Mas meu estômago e intestino não quiseram digerir mais nada a partir deste dia. Mal da altitude, efeito emocional ou contaminação? Não sei, provavelmente um pouco de cada.

E segui, dali em diante controlando o emocional e racional, que falavam para mim o tempo todo que eu precisava comer, que sem comer não se anda. Mentira! Descobri isso após o café da manhã do terceiro dia, ainda sem comer. Palavras sábias do meu mestre. O que aconteceu a seguir foi que sempre que eu pegava meu cajado e começava a andar tudo passava. Vazio. Uma música de fundo na minha mente, eu, o caminho e o cajado. Só no momento que eu parava nos acampamentos que meus pensamentos, medos e diarréias conseguiam me alcançar. Inexplicavelmente!

Agora eu sei o que é manter um estado de meditação continuo. É estar 100% no agora. Entregue ao que acontecer. Mas guerreira para enfrentar.




sexta-feira, 17 de junho de 2011

1º Dia de Peregrinação

Segundo um provérbio chinês "uma imagem vale mais do que mil palavras".
Então vou deixar hoje fotos e sentimentos apenas sobre o primeiro dia.
Sentimento inicial: ansiedade!















Sentimento final: deslumbramento!
Segundo o dicionário o significado de Deslumbramento
s.m. Ofuscação momentânea da vista causada por muita luz.
Fig. Maravilha; fascinação; encanto.

Essa montanha coberta de neve e imponente com certeza causou-me deslumbramento.

Para terminar com mais um provérbio chinês: "Uma caminhada de mil léguas começa sempre com o primeiro passo".

domingo, 12 de junho de 2011

Eu me torno uma peregrina...


A tão esperada peregrinação...o motivo que me impulsionou a toda essa jornada!

Minha peregrinação na verdade começou muito antes de eu pensar em embarcar nessa viagem. Tudo começou no ano de 2009, com o aniversário de 40 anos do meu marido. Organizei uma festa incrível, numa boate badalada, muitos amigos, gente de perto e de longe, muita alegria, musica do nosso gosto, comidinha boa, um clima de amizade e carinho constante. Foi a melhor noite em uma boate da minha vida, da dele e de muitos amigos que estavam la. Após essa noite, eu comecei a refletir muito sobre os meus 40 anos, que não estava batendo na porta ainda, mas chegando de mansinho.

O tempo sempre foi uma preocupação na minha vida, não gosto da sensação de o tempo estar passando. E sempre me pego pensando que não aproveitei tudo que tinha. Mas a chegada dos 40 anos parece hoje em dia o novo debutar. Eu não debutei aos 15, diga-se de passagem. Preferi ganhar uma mobilete que era o máximo da liberdade na época permitida. E como eu aos 40 anos iria passar essa data? Uma festa na boate não fazia mesmo o meu perfil. Primeiro porque não sou uma pessoa super conhecida, nem popular, nem tenho tantos amigos assim para lotar uma boate! E não me entendam mal, eu tenho amigos. Sou uma pessoa de muitas irmãs espalhadas pelo mundo. Tenho amizades que são tão forte e verdadeiras que transcendem o tempo e a distancia. Sempre que encontro uma dessa amigas-irmãs é uma sensação de que estamos continuando a conversa de ontem a noite, apesar de as vezes anos sem nos ver.

Mas então como eu passaria meus 40 anos? Não sei dizer de onde nem quando surgiu essa ideia maluca, mas ela veio certeira: vou comemorar meu aniversário de 40 anos percorrendo o Caminho de Santiago de Compostela! Pronto, estava certo para mim. Era isso. Após essa revelação, minha mente racional começou a pensar, pesquisar, comentar, convidar amigas para acompanhar, etc, etc. Até que alguem disse "800 km? Você não vai dar conta." E aí que eu parei para pensar no que realmente eu estava me propondo. Eu queria me tornar peregrina e não maratonista como meu marido. E também precisava caminhar por esse caminho para me encontrar e não para provar para niguem que eu podia. E me fiz a pergunta: quanto eu consigo andar? Não sabia a resposta, nunca tinha andando mais de 10 km.

Foi então que em dezembro de 2010 eu entrei na academia, contratei uma personal trainer para me condicionar. Faltavam ainda 3 anos, mas eu precisava fazer testes antes de tentar Santiago. Na mesma época assisti a um programa do Alternativa Saúde no GNT onde eles tinham feito a trilha inca de Salkantay. Eram apenas 5 dias caminhando, algo em torno de 16 km por dia, e pensei, essa será minha primeira meta teste.

Propus a mim mesma 1 ano de treino para fazer a trilha. Mas o Universo conspira sempre que estamos prontas, e no final de janeiro recebo o telefonema da minha querida Marcinha, conversa vai, conversa vem...e eu digo a ela que minha meta esse ano era me tornar peregrina. Então ela me conta da viagem com Marco Shultz, já para maio, exatamente pela trilha Salkantay! Uma dadiva!

Depois disso foi treinar, treinar e treinar. Busquei ajuda de uma nutricionista "natureba" para comer direitinho, ganhando massa muscular e perdendo gordura, tudo com uma alimentação vegetariana no cardapio. O que foi essencial nesta fase de treino. Voce é o que você come (e o que você pensa e faz tambem). E pesquisei muuuuito, li tudo o que tinha neste google sobre trilha, sobre calçados, sobre roupas termicas, sobre o clima de lá, sobre experiências boas e ruins...

Enfim, não fui de gaiato mesmo. Fui para ser Peregrina. E vivenciar tudo o que o caminho me oferecesse.